Mais
do que um livro que se insere na temática da II Guerra Mundial, mais do que um
romance de amor, de ciúme e de traição que tem o antissemitismo como pano de
fundo, esta obra de João Pinto Coelho, que ganhou, com toda a justiça, o Prémio
Leya 2017, fica certamente como um marco na literatura portuguesa, pela mestria na abordagem de
acontecimentos tão trágicos como incómodos quer para os cristãos em particular quer,
de um modo geral, para qualquer pessoa que preze os direitos humanos e o valor
universal da dignidade da vida.
Em
nota do autor, ficamos a saber que a história do livro, embora ficcionada, se
baseia nos acontecimentos históricos ocorridos no dia 10 de julho de 1941, na
pequena cidade de Jedwabne, no nordeste da Polónia, onde “um grupo de cidadãos,
na sua maioria cristãos, reuniram à força os seus vizinhos judeus na praça
principal e, num festim de violência, conduziram-nos até um celeiro próximo que
incendiaram, queimando vivas centenas de pessoas, incluindo muitas crianças.”
A
delicadeza do tema não assustou João Pinto Coelho que, já no seu primeiro
romance, “Perguntem a Sarah Gross”, se tinha ocupado do holocausto. Embora a
questão dos perpetradores esteja presente em ambos, é no segundo que mais me
parece evidente. São pessoas comuns, como qualquer um de nós, que estão na
origem desse mal radical, universal, que transforma qualquer ser humano em
carrasco do outro. Falo na primeira pessoa do plural, exatamente porque penso
que ninguém se pode autoexcluir à priori, na ilusão de uma superioridade moral,
que apenas no confronto com circunstâncias extremas e muito particulares pode
ser comprovada. Aqui, é a comunidade cristã, vizinha secular, da judaica que,
num “ápice”, (o tempo medido tragicamente) comete os crimes mais hediondos,
contra esta última, com a qual diariamente convivia.
Este
é um espantoso romance, magistralmente escrito a dois tempos, (o passado, da
guerra, e o presente) em espaços geograficamente tão diversos, como a Polónia,
a Rússia, a Itália e a França, com recursos estilísticos pouco comuns na nossa
literatura recente, um domínio perfeito da língua portuguesa, da ironia e da
poética, que me fizeram, frequentemente, voltar atrás e reler, pelo puro prazer
da leitura. Tudo é extremamente cuidado e burilado. A vívida caracterização das
personagens dá-nos uma paleta colorida de vultos humanos, recortados em luzes e
sombras, que não se limita aos três principais: um judeu cego, um cristão e a
filha de uma cigana considerada bruxa.
Os
sentimentos e as emoções são traduzidos sobriamente, numa linguagem poética, de inegável beleza, particularmente
quando tocam o amor. Quase se sente um certo pudor na sua transmissão. A bonita
amizade que une Yankel, judeu, Erik, cristão, e a cigana Shionka, que perdeu a
voz na infância, parece indissolúvel, desde que travam conhecimento, ainda meninos,
mas à medida que o tempo passa naquela cidadezinha perdida no nordeste da
Polónia ocupada, surgem o amor e, com ele, a rivalidade, o ciúme, a traição e a
mentira. Até àquele dia fatídico em que homens vulgares, normalmente
insuspeitos, honrados, “tidos por pacatos”, frequentadores da igreja perdem
toda a humanidade e se transformam em bestas.
É para essa realidade, de tal forma excessiva
que se torna quase inenarrável, que João Pinto Coelho encaminha
progressivamente o leitor. A narrativa, já de si cinematográfica, desde o
início, adquire um ritmo acelerado, deixa-nos suspensos do momento seguinte.
João Pinto Coelho tem essa proficiência, essa capacidade de nos surpreender
sendo, não obstante, enigmático. Vai tecendo a filigrana da história numa
tensão em crescendo até ao clímax do drama, quando todos os judeus são
encaminhados para o manicómio, onde se consumará toda a loucura.
Furtando-se à arrogância intelectual, não
formula juízos de valor. Não precisa. Os
factos excedem tudo o que se poderia esperar. São descritos com crueza, sem apelo
nem agravo, sem sobrecarga de adjetivos num capítulo. O pathos lhe basta. Porque
o sabe criar de forma exímia. Podemos transbordar em lágrimas, ser forçados a
parar, pela intensidade da emoção, mas voltamos pouco depois com a mesma ânsia de
tudo ler até ao fim. Porque existem exceções entre a maior desumanidade: o padre
Kazimierz e as irmãs franciscanas de um mosteiro polaco.
No final, são os laços de amizade entre os
três sobreviventes que perduram até à contemporaneidade em Paris e é o amor que
surge como esperança e redenção, ainda que à beira do fim dos seus dias.
Inevitavelmente, pelo menos para mim, fui
levada a “recordar” a histórica “matança da Páscoa”, que ocorreu em Lisboa, em
Abril de 1506. Segundo Garcia de Resende e conforme reportado por Damião de
Góis uma multidão de cristãos, instigada por frades dominicanos, torturou,
massacrou e queimou vivos, em fogueiras improvisadas no Rossio, mais de quatro
mil judeus. Seguiu-se a Inquisição que duraria de 1580 a 1821 em Portugal.
O antissemitismo, a crendice, o ódio mais
irracional não têm, infelizmente, idade nem localização geográfica delimitada. O
ser humano é capaz do melhor e do pior. É essa humanidade extrema, esse
“humano, demasiado humano”, que João Pinto Coelho foi capaz mostrar numa obra maior.
2018-01-16
Maria Teresa Sampaio
1 comentário:
Para quem ainda não leu, como é o meu caso, fica a vontade de ler e explorar todo o universo eximiamente descrito por ti. A descoberta deste novo autor português com uma escrita tão marcante como descreves, acompanhado deste levantar do enorme manto histórico que nos irá inquietar para sempre, pela sua violência atroz e pelas consequências brutais que deixa como marco na/da Humanidade. Devíamos ser puros mas não somos, devíamos ser ingénuos mas não podemos, devíamos não mais repetir, mas nada nos garante que assim aconteça.
Obrigada mãe por mais este belíssimo texto e pela história que me ensinas sempre.
Vou ler...
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