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sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Longo caminho para a liberdade

"Percorri esse longo caminho para a liberdade. Tentei não fraquejar; dei passos errados ao longo do percurso. Mas descobri o segredo: que, depois de escalar uma grande montanha, apenas se descobre que há muitas mais montanhas para subir. Parei aqui um pouco para descansar, para deitar uma olhada à vista maravilhosa que me rodeia, para olhar para a distância, de onde vim. Mas posso descansar somente por um momento, porque com a liberdade vêm as responsabilidades – e não me atrevo a demorar-me, pois a minha caminhada ainda não terminou.” - Nelson Mandela (In "Longo Caminho para a Liberdade").



Terminou agora a caminhada e valeu a pena tanta coragem, tanta luta, tanta esperança, tanta humanidade.
Valeu a pena o perdão e a reconciliação.
Agora já não há mais montanhas, apenas vales verdejantes.
Agora Madiba descansa em paz.

Nelson Mandela e Aníbal

A hipocrisia e a total ausência de vergonha pelos atos cometidos caracterizam, para além de outros traços de caráter, que agora me abstenho de identificar, o Presidente da República que infelizmente Portugal ainda tem.

Quando a 20 de Novembro de 1987 a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou, com 129 votos a favor, um apelo para a libertação de Nelson Mandela, houve apenas três países se opuseram votando contra:
os Estados Unidos, de Ronald Reagan;
o Reino Unido, de Margareth Thatcher;
e Portugal governado por Cavaco Silva, então Primeiro-Ministro, recentemente eleito.

Vinte e seis anos depois, a 5 de Dezembro de 2013, o mesmo homem, Aníbal Cavaco Silva, agora Presidente da República Portuguesa, envia uma nota de condolências ao seu homólogo da África do Sul em que afirma: "Foi com profunda consternação que tomei conhecimento da notícia do falecimento de Nelson Mandela." Tece, depois, os maiores encómios a Mandela. http://www.presidencia.pt/?idc=18&idi=79771

O que mudou na cabeça deste homem que dá pelo nome de Aníbal e ainda é Presidente? Nelson Mandela negociou a sua própria libertação, foi eleito o primeiro Presidente negro da África do Sul, ganhou o Prémio Nobel da Paz e a admiração mundial pelas suas características humanas e de liderança.

Aníbal tem de se curvar, para acertar, agora, o passo com o mundo.
Aníbal continua a ser responsável pelo terrível ato de cobardia que colocou Portugal entre os países que queriam ver Nelson Mandela atrás das grades.
Aníbal é o protagonista dessa vergonha nacional.
Aníbal, pequenino na dimensão humana, carrega essa culpa que lhe deve pesar para sempre na consciência, se é que a tem.
Aníbal deve continuar curvo.

mts



segunda-feira, 25 de novembro de 2013

A cara do riso.

O riso é sagrado e fez-se humano nas crianças
na pura alegria de viver a brincar.

mts

Pure innocence © Rishit Temkar

Sorrisos de luz

Mulher vestida de emoção
na nudez de uma estátua
abraça-se a si própria
e nesse abraço desperta
sentimentos de proximidade
nas crianças que a procuram
e nela se deixam estar
a olhar  a brincar   a aprender
que a carne pode ser de bronze
e os sorrisos felizes podem
ser feitos de serenidade e de luz.

mts 



Artista desconhecido

Lua redonda

Noites em que a lua atravessa a noite,
com um clarão que ilumina os pesadelos
e os transforma em sonhos.
Noites de lua cheia como as marés
que sobem nas praias e descobrem
os amantes em delírios de amor.
Noites que enchem as sombras de luz
e despertam emoções naqueles que
não se importam de sentir desvairadamente.
mts



© Norbert Senser

domingo, 24 de novembro de 2013

Alegria


Austrian orphan child receives a pair of shoes. 
By Gerald Waller

Esta imagem de genuína e sã alegria da criança que recebe um par de sapatos novos, ilumina o meu dia. Já a publiquei outra vez, em outro lugar, mas nunca é demais olhá-la e relembrar como a felicidade reside nas pequenas coisas, nos instantes fugidios de um terno olhar, numas mãos que apenas adejam como asas de pássaro, numa lembrança que nos inunda de saudade e de lágrimas.

A palavra ALEGRIA tem risos, flores e música em cada sílaba. 
Digo ALEGRIA e, logo, sorrio. 
(Não se pode deixar de sorrir quando se pronuncia sincopadamente ALEGRIA.)
Sabe a Primavera e a vermelhos bagos de romãs do Natal.
Lembra o suave marulhar das ondas a desfazer-se na areia da praia.

Dizer ALEGRIA é dizer CRIANÇA feliz.

Dizer ALEGRIA é dizer ADRIANA.

Adão e Eva

Olhámo-nos um dia,
E cada um de nós sonhou que achara 
O par que a alma e a carne lhe pedia.

- E cada um de nós sonhou que o achara...
E entre nós dois 
Se deu, depois, o caso da maçã e da serpente, 
... Se deu, e se dará continuamente:

Na palma da tua mão, 
Me ofertaste, e eu mordi, o fruto do pecado.

- O meu nome é Adão...

E em que furor sagrado 
Os nossos corpos nus e desejosos 
Como serpentes brancas se enroscaram, 
Tentando ser um só!

Ó beijos angustiados e raivosos 
Que as nossas pobres bocas se atiraram, 
Sobre um leito de terra, cinza e pó!

Ó abraços que os braços apertaram, 
Dedos que se misturaram!

Ó ânsia que sofreste, ó ânsia que sofri, 
Sede que nada mata, ânsia sem fim! 
- Tu de entrar em mim, 
Eu de entrar em ti.

Assim toda te deste, 
E assim todo me dei:

Sobre o teu longo corpo agonizante, 
Meu inferno celeste, 
Cem vezes morri, prostrado... 
Cem vezes ressuscitei 
Para uma dor mais vibrante 
E um prazer mais torturado.

E enquanto as nossas bocas se esmagavam, 
E as doces curvas do teu corpo se ajustavam 
Às linhas fortes do meu, 
Os nossos olhos muito perto, imensos 
No desespero desse abraço mudo, 
Confessaram-me tudo! 
...Enquanto nós pairávamos, suspensos 
Entre a terra e o céu.

Assim as almas se entregaram, 
Como os corpos se tinham entregado. 
Assim duas metades se amoldaram 
Ante as barbas, que tremeram, 
Do velho Pai desprezado!

E assim Adão e Eva se conheceram:

Tu conheceste a força dos meus pulsos, 
A miséria do meu ser, 
Os recantos da minha humanidade, 
A grandeza do meu amor cruel, 
Os veios de oiro que o meu barro trouxe...

Eu os teus nervos convulsos, 
O teu poder, 
A tua fragilidade, 
Os sinais da tua pele, 
O gosto do teu sangue doce...

Depois...

Depois o quê, amor? Depois, mais nada, 
— Que Jeová não sabe perdoar!

O Arcanjo entre nós dois abrira a longa espada...

Continuámos a ser dois, 
E nunca nos pudemos penetrar!

José Régio

In Poemas de Deus e do Diabo


Gustav Klimt: Adão e Eva