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terça-feira, 21 de março de 2017

Felicidade . Sophia de Mello Breyner (Dia Mundial da Poesia)

Pela flor pelo vento pelo fogo
Pela estrela da noite tão límpida e serena
Pelo nácar do tempo pelo cipreste agudo
Pelo amor sem ironia – por tudo
Que atentamente esperamos
Reconheci a tua presença incerta
Tua presença fantástica e liberta
~
Sophia de Mello Breyner
In Livro VI

Liberdade - Paul Éluard (Dia Mundial da Poesia)

Nos meus cadernos da escola
Na minha carteira nas árvores
Sobre a areia e sobre a neve
Escrevo o teu nome
Em todas as páginas lidas
Em todas as páginas em branco
Pedra sangue papel ou cinza
Escrevo o teu nome
Na selva e no deserto
Nos ninhos e nas giestas
Na memória da minha infância
Escrevo o teu nome
Em cada raio da aurora
Sobre o mar e sobre os barcos
Na montanha enlouquecida
Escrevo o teu nome
Na saúde recuperada
No perigo desaparecido
Na esperança sem lembranças
Escrevo o teu nome
E pelo poder de uma palavra
a minha vida recomeça
Eu renasci para conhecer-te
Para dizer o teu nome
Liberdade.
~~
Paul Éluard 
Delacroix. La Liberté guidant le peuple

Saudade - Mia Couto (Dia Mundial da Poesia)

Magoa-me a saudade
do sobressalto dos corpos
ferindo-se de ternura
sói-me a distante lembrança
do teu vestido
caindo aos nossos pés
Magoa-me a saudade
do tempo em que te habitava
como o sal ocupa o mar
como a luz recolhendo-se
nas pupilas desatentas
Seja eu de novo a tua sombra, teu desejo,
tua noite sem remédio
tua virtude, tua carência
eu
que longe de ti sou fraco
eu
que já fui água, seiva vegetal
sou agora gota trémula, raiz exposta
Traz
de novo, meu amor,
a transparência da água
dá ocupação à minha ternura vadia
mergulha os teus dedos
no feitiço do meu peito
e espanta na gruta funda de mim
os animais que atormentam o meu sono
~~
Mia Couto
Outubro de 1979
In Mia Couto 'Raiz de Orvalho e outros poemas". Editorial Caminho. 1987
Diego Fernandez

Sísifo - Miguel Torga (Dia Mundial da Poesia)

Recomeça…
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar
E vendo
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.
~
Miguel Torga
(1907-1995)
In "Diário XIII"
Sísifo. Tiziano,Vecellio di Gregorio. 1548 – 1549. 
Madrid, Museo Nacional del Prado.

sábado, 7 de janeiro de 2017

Mário Soares

Mário Soares [7/12/1924 – 7/1/2017]

Hoje estou triste. Tenho um único desejo: que descanse em paz este homem, combatente pela democracia contra o poder ditatorial de Salazar e de Caetano, que sofreu na pele a repressão, por defender os seus ideais, e que amava a vida com alegria e entusiasmo.
Não fui sua apoiante política, mas fui esperá-lo a Santa Apolónia quando chegou do exílio e votei nele para Presidente da República.
Era um republicano, liberal, polémico, lutador pelos direitos humanos, pela liberdade, pela democracia e pela paz, uma referência única para o Partido Socialista Português, de que foi fundador, e sê-lo-á, certamente para Portugal e para a Europa também.
Recordo, na sua partida definitiva, apenas os aspetos positivos, porque são mais importantes, a meu ver.  
Lembro Mário Soares como uma pessoa singular, de grande coragem, culto, com uma enorme capacidade de diálogo e de tolerância, incansável lutador, que aceitava as derrotas com bonomia, pronto para voltar à luta no momento seguinte. Traçou o seu caminho contra ventos e marés e marcou indubitavelmente os destinos de Portugal. Viveu intensamente, sem nunca se resignar, com sentido de humor, prazer e jovialidade.
Nada mais me importa, a não ser que morreu um HOMEM, um fazedor de destinos, que acabou por ser um vencedor.

mts

Preso pela PIDE várias vezes.
 Com Maria Barroso, sua mulher e companheira de sempre. a quem escreveu este poema, 
quando se encontrava encarcerado na prisão do Aljube, no ano 1962:

Para ti
Meu amor
Levanto a voz
No silêncio
Desta solidão em que me encontro
Sei que gostas de ouvir
A minha voz
Feita de palavras ternas e doces
Que invento para ti
Nos momentos calmos
Em que estamos sós
Sei que me ouves
Agora…
… uma vez mais
Apesar da distância
E do silêncio
Opera esse milagre
Simples
Como tudo o que é natural


 No comboio que o trazia de regresso do exílio.
 Chegada a Santa Apolónia
 Com Álvarto Cunhal no 1.º de Maio de 1974
Célebre debate televisivo com Álvaro Cunhal
Alegria de viver.

domingo, 1 de janeiro de 2017

A Paz Sem Vencedor e Sem Vencidos

O título deste poema da grande Sophia foi mote para o discurso de Ano Novo do novo Secretário Geral da ONU, António Guterres.
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A PAZ SEM VENCEDOR E SEM VENCIDOS
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos 
A paz sem vencedor e sem vencidos
Que o tempo que nos deste seja um novo
Recomeço de esperança e de justiça.
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Erguei o nosso ser à transparência
Para podermos ler melhor a vida
Para entendermos vosso mandamento
Para que venha a nós o vosso reino
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Fazei Senhor que a paz seja de todos
Dai-nos a paz que nasce da verdade
Dai-nos a paz que nasce da justiça
Dai-nos a paz chamada liberdade
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
~~
Sophia de Mello Breyner Andresen
War and Peace serigrapy. Pablo Picasso 

Ode à Paz

Neste Dia da Paz não posso deixar de a assinalar com dois dos poemas de que mais gosto sobre este tema:
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Ode à Paz
Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,
Pelas aves que voam no olhar de uma criança,
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
Pela branda melodia do rumor dos regatos,
Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos,
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,
Pelos aromas maduros de suaves outonos,
Pela futura manhã dos grandes transparentes,
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz.
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
Abre as portas da História,
deixa passar a Vida!
~~
Natália Correia

Rafal Olbinski. Paz