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segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

"TUDO O QUE EU TENHO TRAGO COMIGO" - HERTA MÜLLER


Falar de uma sensação que se desconhece e conseguir a proeza de fazer o leitor senti-la, ao ponto de a angústia se tornar insuportavelmente dolorosa, é obra de uma enorme escritora. Se Herta Müller necessitasse de legitimação para o Prémio Nobel que recebeu em 2009, este livro cumpre esse objetivo na totalidade.

“Tudo o que tenho eu trago comigo” é uma autêntica obra-prima  da literatura, ultrapassando todos os cânones habituais. Primo Levi testemunhou a sua experiência nos campos de concentração em “Se isto é um homem”, livro que nunca mais se esquece. Outros sobreviventes escreveram e nós questionámos, arrasados: como foi possível? Aqueles que, como eu, leram o “Arquipélago de Gulag", por Alexander Soljenítsin, nos anos 70, ficaram completamente desiludidos em relação aos ditames e aos sonhos que os dirigentes do Partido Comunista nos vendiam desde a clandestinidade até ao 25 de Abril. Muitos esqueceram, bloquearam estas verdades incómodas e ainda hoje votam no “Partido”, “porque ele é necessário”, ou por outras razões que não vêm ao caso.

No posfácio do livro, Herta Müller, cuja mãe esteve cinco anos num campo de trabalho, conta que o tema era tabu, porque recordava o passado fascista da Roménia”. Em Janeiro de 1945, em nome de Estaline, todos os alemães residentes na Roménia, homens e mulheres, entre os 17 e os 45 anos, “foram deportados para a prestação de trabalho forçado em campos soviéticos”. Em 2001, a escritora começou a registar as conversas com pessoas outrora deportadas da sua aldeia e, em 2009, foi editado este romance, que conta a história de um jovem deportado, em Janeiro de 1945, quando ainda havia guerra. Chamava-se Leopold Auberg, mas nem sequer o nome importava, porque no campo ficava-se desprovido de tudo.

E assim começa o romance com as frases do próprio deportado, quase premonitórias:
“Tudo o que eu tenho trago comigo.
Ou: Tudo o que é meu trago comigo”

Em breve esse “tudo” se transforma em nada, a não ser quando, raramente, se consegue poupar, de manhã até à noite, uma pequena côdea de pão duro, que se guarda na almofada e, muitas vezes é roubada. Não me lembro de sentir um tal crescendo de angústia a ler um livro, de tal forma que se torna insuportável e nos rói o peito de dor.
O próprio protagonista diz “Como é que uma pessoa anda por este mundo, quando sobre si nada mais sabe dizer, a não ser que tem fome. Quando já não consegue pensar noutra coisa”.

Pode parecer impossível, mas Herta Müller consegue transmitir o horror de uma forma poética, filosófica, sem, contudo, lhe tirar o efeito devastador e dramático, de pura e real tragédia humana. “Não há palavras adequadas ao sofrimento da fome” – diz o jovem alemão. E acrescenta: “Ainda hoje preciso de provar à fome que lhe escapei. Eu como literalmente a própria vida, desde que não tenho de passar fome”.
Mesmo cinco anos depois, quando foi libertado, ou até sessenta anos depois, Leo não consegue saborear a alegria da libertação e do regresso a casa. “Há muito” que tinha “ensinado a minha saudade de casa a ter os olhos secos. E agora desejo que a minha saudade também deixe de ter dono”. Mas, a humanidade é frágil e Leo cede, ao receber uma carta da mãe com a fotografia do seu novo irmão, que logo apelida de seu substituto. Ajoelha-se “à beira da mesa” deixa cair “as mãos sobre ela e a cara sobra as mãos” e soluça, porque logo assume que os pais fizeram um filho porque já não contam com ele.

A libertação nunca é o que se pensa, não coincide com os sonhos que a imaginação pintou. Depois de regressar a casa, nunca ninguém lhe perguntou nada. O poder das palavras mata. Leo ficou preso dentro de si, exilado de si próprio, irremediavelmente só, com um sentimento de inferioridade, de possessão pelo outro, irremediável. Tal como afirma, muitas décadas depois de ter vivido aquela experiência radical de fome, de compulsivo trabalho forçado, de ausência total de posse e de livre arbítrio, Leo acaba por constatar que tem medo de ser livre: “Em mim habita o tirano da misericórdia, parente do anjo da fome”.
E, apesar de tanta miséria física e moral, Leo sabe que “A felicidade é uma coisa repentina.”

Entrei no ano de 2016 a ler este romance tristemente belo, despojado, em que o horror é naturalmente devorado até ao fim, e nem a redenção chega para substituir a lembrança vívida da FOME. Como explicar, então, que este é um dos mais belos e poderosos romances que já li?



Lisboa, janeiro de 2016
Maria Teresa Sampaio​

"Tudo o que eu tenho trago comigo." Herta Müller. D. Quixote, Junho, 2010.

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