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terça-feira, 28 de julho de 2015

Brasa


Olho a rosa que nasce dos teus lábios,
as estrelas no firmamento do teu olhar
e enlouqueço de alegria
quando me colhes como flor selvagem
no fogo do nosso desejo.



Teresa Sampaio 




Auto-retrato

Ouve bem. Não sou o que tu pensas que eu sou,
nem sequer a imagem que desenhaste de mim.
Mas também não sou o que julgo ser.
Sou o traço de união
entre o que faço e o que desejaria fazer.
Sou as reticências que se acrescentam
ao que apenas se deixa adivinhar.
Quando olhares para mim não esperes dogmas,
porque só quando o instante decisivo
irromper com a urgência do inevitável
eu te direi o que vou fazer.
Mas faço-o sem hesitações
e, então, nada nem ninguém me detém.

Não me peças conselhos porque se o fizeres
estás a escolher antecipadamente o meu rumo
e esse sou eu quem o constrói ao caminhar.
Sou livre. Por isso sou capaz de escolher
até quando a opção parece impossível
e sei assumir todas as consequências,
mesmo que por vezes a dor me cegue.

Perguntas-me o que significa o amor para mim.
Respondo-te que é tão importante como a liberdade
e que sem eles me é impossível viver.
Por isso me lanço algumas vezes
num barco sem remos nem motor,
no oceano da aventura sem limites.

Queres conhecer-me? Desiste.
Eu própria me desconheço
embora cultive o hábito doloroso
de mergulhar no fundo do meu poço
p'ra colher surpresas e também desilusões.
Mas, tem um pouco mais de paciência.
Imagina alguém que se consome
no incêndio que ela própria alimenta,
que é palco das emoções mais adversas,
que em cada instante extravasa o seu próprio sentir,
que está sempre além da própria razão
e cujo sonho excede constantemente
as margens da contida realidade.
Imagina ainda alguém
que é albergue de todas as sensações,
que tenta pôr-se na pele de todas as personagens,
sofrer todas as mágoas, rir todas as alegrias,
combater todas as injustiças,
estar ao lado de todos os oprimidos,
dar uma mão amiga a todos os pedintes,
compreender todos os marginais,
saltar, pular e brincar com todas as crianças,
dialogar com todos os adolescentes,
alguém capaz de pegar em armas,
se for necessário, p'ra defender a liberdade.
Se é pouco o que te disse, procura tu o resto.
Não voltarei a falar-te de mim.
Prefiro sentir-me, sentir tudo.
Estou aqui à beira do abismo,
mas com as pernas ainda ágeis para o transpor,
e com olhos de águia para abarcar,
com um só olhar, a imensidão deste desfiladeiro.
Se não te apressas, perdes-me.
É que estou sempre a partir.
Não levo malas comigo,
nem apanho um qualquer comboio.
Transporto tudo dentro de mim,
num excesso que por vezes transborda em solidão.
Não preciso de empurrões solícitos.
Vou por onde quero, para onde quero,
pelo caminho acidentado que escolhi.
Se tropeçar e cair é comigo.
Enquanto tiver forças levantar-me-ei sozinha.
O hoje não me satisfaz.
O meu destino é o depois de amanhã.


 Teresa Sampaio

Ausência



Isto que chora dentro de mim
como criança a quem prometeram uma estrela,
isto que sinto rasgar-se,
que arde e dói como não sei o quê,
isto que cansa de esperar,
que ri e soluça
e tem sabor a loucura,
isto que tenho dentro de mim
é talvez a saudade do desconhecido,
é por certo a ausência do que não tenho.





 Teresa Sampaio



Adiamento


Dia a dia, hora a hora,
o meu país vai-se adiando.
A memória perde-se nas promessas
de um futuro sempre protelado.
A palavra crise já faz parte
do léxico normal de todos.
A fome e o desemprego
são o pesadelo real
dos que a nada mais têm direito.
A descrença e o desespero
instalaram-se numa rotina
tecida na hipocrisia dos gestos inúteis,
na arquitectura das palavras ocas.
Mas há quem teime em sonhar
e acalente a utopia,
quem forre com o musgo da esperança
esta pequena barca
que navega à deriva
entre os destroços de um projecto,
em direcção às águas límpidas
do oceano sem limites.






 Teresa Sampaio

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

QUADROS COM HISTÓRIA: “O BEIJO”. KLIMT


Sempre me senti fascinada pela apoteose cromática de “O Beijo”, de Klimt. Por entre o fundo de ouro e a base de flores ergue-se uma forma homogénea, que representa a fusão de dois corpos unidos pelo Amor. 
Tudo se passa como se olhasse o sol diretamente, sem filtros. A sedução, que transpassa para o lado de cá, de quem olha, é quase impositiva. As figuras masculina e feminina não se evidenciam apenas pelos rostos e mãos, mas também, mais simbolicamente, pelos padrões dos tecidos que vestem. Ele, com um manto opulento de formas geométricas, mais viris, e ela com imagens arredondadas e floridas, que simbolizam o feminino.
O homem não mostra o rosto, mergulhado que está no enlace da mulher, ruiva, como eram as mulheres pintadas por Klimt, por influência dos Pré-Rafaelitas. A sua virilidade evidencia-se pelo pescoço e mãos fortes, bem como pelo porte imponente. Ela aparenta uma atitude mais passiva e subjugada. Ambos se deixam envolver naquele momento único que antecede o beijo. É o quase e não o já que lhes importa. Saboreiam antecipadamente o esplendor que irão viver. Ajoelham-se numa atitude plena de submissão perante o amor. As flores e folhas envolvem o cabelo de ambos e colorem o tapete que lhes serve de leito. As plantas douradas que envolvem os pés da mulher, são conhecidas como a erva de Parnaso, um antigo símbolo de fecundidade. O próprio pintor cultivava as plantas e flores, que reproduzia nas suas pinturas. Ali estão eles, apaixonados, completamente alheados do mundo, sob uma chuva de ouro e de sol que é o seu êxtase.

“O Beijo” (1907-1908) tem sido considerado uma pintura intensamente erótica, sendo, certamente, a mais célebre e mais reproduzida de Gustav Klimt, repleta de motivos simbólicos e alegóricos, a que não são alheias as descobertas de Jung e Freud. Na Viena de finais do séc. XIX e início do séc. XX, discutia-se abertamente a sexualidade, e o inconsciente, por inficiativa de Freud, contemporâneo de Klimt.

Gustav Klimt (n. 14-7-1862- m. 6-2-1918) era filho de um ourives, e com o pai aprendeu a utilizar as folhas de ouro nas suas obras. Foi, porém, numa viagem a Itália, que se intensificou o gosto pelo dourado, ao conhecer os mosaicos bizantinos da Igreja de San Vitale. “O Beijo” é precisamente considerado o ponto alto da era dourada do pintor. Muitos especialistas pensam que a mulher representada nesta obra é Emilie Flöge, sua companheira e musa preferida. O que importava ao pintor era, no entanto, pintar a mulher, em geral, sexualmente livre.
Klimt representou bem, ao longo da sua obra, a síntese entre o simbolismo e a Arte Nova.

O Beijo é uma festa, um deslumbre, um hino à sedução amorosa.

Atualmente, a obra, de 180x180 centímetros, pode ser vista na Österreichische Galerie Belvedere, no Palácio com o mesmo nome, em Viena, Áustria.


Maria Teresa Sampaio
Fevereiro de 2015

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Ser

É quando a voz se cala
e as palavras  silenciam
que nada apetece
a não ser o murmúrio do vento
nas copas das árvores
ou uma inesperada surpresa de ser


Teresa Sampaio
14-02-2014

sábado, 10 de janeiro de 2015

Je suis moi même

Volto a ser eu mesma, depois do funeral das vítimas do atentado em França e quando se começar a fazer o longo luto do próprio país, pelas razões que aponto de seguida.
Nunca fui partidária do tipo de troça burlesca, sórdida e grotesca que o “Charlie Hebdo” pratica, tal como outras publicações que existiram (não sei se ainda existem) em Portugal e, certamente noutros países, que assestam todas as suas baterias contra uma vítima e não a largam.

Chegada a este ponto, faço um parêntesis. Toda esta matéria é muito delicada porque coloca em jogo as sensibilidades e idiossincrazias de cada um, a sua religião, agnosticismo ou ateísmo, a liberdade de imprensa, os gostos, a cultura e os costumes.
Não gosto de ver satirizada, sistematicamente, perversamente, a religião islâmica, como não gostaria de ver, do mesmo modo, a religião católica, protestante, hebraica, hindu, etc. Porquê? Porque sou simplesmente do género humano.

Chegada a este ponto, quase caía na tentação de dizer: ”há limites para tudo!”. Mas, então, estaria a pôr em causa a liberdade de imprensa e isso, eu não quero, nem sou capaz.

Mas sou capaz, isso sim, de, por imperativo categórico, por uma razão, não só, mas também de caráter convictamente humanista, não ter determinadas práticas ofensivas das religiões, cultura e costumes de outras pessoas diferentes de mim. Porquê? É simples: não os quero ofender nem lhes quero causar qualquer tipo de dano. A minha liberdade acaba onde começa a do outro. Neste caso, (sublinho neste caso) houve razões de sobra para ser solidária com os cartonistas, com o polícia, ou, simplesmente, pessoas barbaramente executadas no ataque em França, mas também com os judeus e com o povo francês.

Por outro lado, afirmo-me pela positiva e tento fazer aos outros o que gostaria que eles me fizessem, prática que todos sabemos difícil em certas ocasiões. Eu sei que Kant anda, algures, a passear por este texto e pelo meu pensamento e não me importo nada, porque julgo-me incapaz de lesar outrem, de livre vontade, na posse da totalidade das minhas faculdades mentais. Coloco de fora o uso de legítima defesa, por razões óbvias.

É por tudo isto que volto a ser eu mesma e não Charlie.

10/11 de janeiro de 2015

Maria Teresa Sampaio