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quarta-feira, 20 de julho de 2016

Que o mal não vos contamine.

Que o mal não vos contamine.
e a esperança não vos falte.
Que nos vossos olhos as lágrimas
não sequem, porque
podem ser lampejos de alegria.
Que o sol ou a lua sejam
vossos eternos companheiros.
Que quem nada pode
tenha o porto seguro
das vossas mãos solidárias.
Que o vosso coração
seja uma fonte de luz
onde a verdade e o sonho
nunca se apaguem.

mts
  

    Ergy Landau (Landau Erzsi - 1896-1967). Reading children. 1964


terça-feira, 19 de julho de 2016

Reencontro

Nem só de presente e de promessas de futuro se tece a vida.
Também se molda no passado, em cumplicidades antigas, brincadeiras e jogos de palavras, trabalhos conjuntos,objetivos partilhados, admiração por um líder  e solidariedade com os companheiros e um grupo.
Podem passar muitos anos, a idade e a falta de saúde marcarem o corpo, que o gosto do reencontro é verdadeiro e sentido com alegria genuína, sem cerimónia ou esforço.
Velhos companheiros de estrada não se esquecem. De cada vez que se vêem, seja qual for o intervalo de tempo volvido, as boas memórias reavivam-se e as menos boas, se existem, apagam-se. Olham-se e, no abraço que trocam, sentem que há uma ponte que edificaram entre eles, do passado para o presente.
Assim foi hoje.
Assim voltará a ser de novo, quando algum de nós chamar.

18 de julho de 2016
Maria Teresa Sampaio

Imagem: autor não identificado

sábado, 16 de julho de 2016

Alegria, imensa alegria. [Sukot]

Povoa-nos, alegria. Habita em nós como um barco ilumina o oceano,
como um cavalo na intensidade da planície deserta
levanta os seus olhos até ás Hastes do plátano incandescente.
Constrói em nós a arquitetura das cidades do sul, o labirinto,

o oculto, a fome, a sede, a rapidez do nome, o seu despojamento
eterno, a água dos litorais, o Outono, a passagem das aves.
Povoa-nos, alegria imensa de alegria sem adorno, apenas
alegria sem deuses, nem a passagem, o sacrifício, as leis, os rios

do exílio, o êxodo, a sombra das cabanas, o sangue, a terra, o rosto
frio, os astros perdidos, os lábios secos, o coração do deserto.
Povoa-nos como a uma pátria de exilados, como a um corpo sem vestes

nem fragmentos, colheitas, transpiração, ardor, uníssono.
Habita em nós, alegria da vastidão, começa em nós onde o tempo
Sobrevive. Povoa-nos, alegria, envolve-nos sofregamente, veloz.

~~

Francisco José Viegas

In Metade da Vida, Quasi, Abril, 2002.
  
 Pablo Picasso.  Mulheres correndo na praia. 1922





O Leitor - Bernhard Schlink


A reflexão que Bernhard Schlink desencadeia em "O Leitor" é, para mim, o aspeto mais valioso deste romance, embora tudo seja narrado com o distanciamento de um jurista. Aliás ele próprio adverte, num comentário, em entrevista à editora Record, sobre a adaptação cinematográfica que foi realizada por Stephen Daldry:

 “Deixe-me enfatizar mais uma vez: “O leitor” não é um livro sobre nacional-socialismo nem sobre o Holocausto. É um livro sobre a relação entre a geração do pós-guerra e a geração da guerra, sobre a implicação da geração pós-guerra na culpa da geração da guerra, e sobre a implicação na culpa em geral. O escritor americano Joyce Hackett achou uma resposta inteligente para a pergunta sobre por que os filmes americanos estiveram tão intensamente preocupados com o Terceiro Reich e o Holocausto em tempos recentes: ela argumenta que depois dos anos moralmente ambíguos de Bush, há uma grande demanda por problemas morais com respostas definitivas, por imagens claras e fortes do bem e o mal. Visto dessa forma, também, “O leitor”, que lida com problemas morais, tensões e conflitos, não se encaixa nessa faixa de filmes americanos. “


 Não, de facto, Schlink não opta por imagens fortes. Michael, o protagonista, autocritica-se e a certa altura considera “repulsivo” o entusiasmo com que ele e os seus colega do seminário do curso de Direito, sobre criminosos de guerra, descobriam “os horrores do passado” e o queriam divulgar, envolvendo-se num processo de revisão do mesmo e de esclarecimento, que “pretendia ser a condenação” da geração dos pais “à vergonha eterna”, ou, pelo menos, a geração que se serviu dos guardas e dos esbirros, ou que não os impediu, ou que pelo menos não os marginalizou como deveria ter feito depois de 1945.
Com uma atitude quase sempre filosófica e interrogativa perante a realidade, o protagonista afirma: “Não devemos aspirar a compreender o que é incompreensível, nem temos o direito de comparar o que é incomparável, nem de fazer perguntas, porque aquele que pergunta, ainda que não ponha em dúvida o horror, torna-o objeto de comunicação em vez de o assumir como algo perante o qual só se pode emudecer de espanto, de vergonha e de culpa”. Penso, contudo, que a dimensão do horror e dos atos criminosos perpetrados por seres humanos sobre outros e o consequente número de mortos, nunca antes registado na Europa dita civilizada, implica que o seu conhecimento seja divulgado e explicada a sua origem, para que nunca mais seja sequer tentado. O pavor e o espanto não nos devem emudecer, nem manietar o pensamento e, muito menos, retrair ou paralisar.
Pode acontecer que a culpa da geração dos filhos daqueles que viveram a guerra e o tempo imediatamente a seguir a ela se torne redentora, na medida em que dela germinem pensamentos e comportamentos verdadeiramente respeitadores da dignidade humana e da Declaração Universal dos Direitos do Homem proclamada pela Assembleia Geral das Nações Unidas na sua Resolução 217A (III) de 10 de Dezembro de 1948.

O perigo reside, precisamente, em nos deixarmos imobilizar pelo espanto, a vergonha e a culpa. Acontece então o que Bernhard Schlink designou por “embotamento geral”, que, no romance, afetava criminosos e vítimas, juízes e jurados. Todos, sem exceção.

O fenómeno do “embotamento”, que provoca a indiferença e a apatia perante a descrição dos crimes nazis executados nos campos de concentração é descrito pelo autor como a única forma possível de se regressar à vida normal. Embora não mencionada, a noção de banalização do mal, de que falou Hannah Arendt, está aqui presente, quando Shhlink refere que os carrascos ficam completamente desprovidos de escrúpulos, “num embotamento semelhante ao dos anestesiados ou bêbados.”
O mais complexo e perigoso é o facto de quase nos parecer que não é apenas o protagonista do romance (Historiador de Direito), mas também o escritor (Juiz do Tribunal Constitucional e Professor de Direito Público), ambos com carreiras em Direito, que são invadidos por uma névoa, um amolecimento que condiciona os seus juízos.

A própria relação entre Michael e Hanna, quando se reencontram, parece contaminada pelo “embotamento”. O amor que o Miúdo sentira por aquela mulher muito mais velha, fria e distante, que o seduzira no começo da sua adolescência, e por quem ele se apaixonara, não resistira à culpa e ao “embotamento”. Restou, da parte dele a lealdade e a vontade de compreender, e condenar o que ela tinha feito. Mas não conseguiu assumir e resolver essa dicotomia. Um “grande vazio” habitava-o, como se dentro dele não houvesse vida. A própria narrativa é isenta de paixão, reduzida à sua expressão mais simples. A atmosfera é cinzenta e fria e tudo contado ao ritmo de um Historiador de Direito, que estudou as leis e os factos para os expor na primeira pessoa, sem, contudo, se envolver.
O mérito deste romance, a meu ver, reside nas questões profundas e perturbadoras com que de Bernhard Schlink nos desassossega e para as quais nem sempre encontra resposta como se também ele estivesse imbuído do fenómeno de “embotamento”.

9 de julho de 2016
Maria Teresa Sampaio


quarta-feira, 2 de março de 2016

[Cerca-me um vazio absoluto de fraternidade]

« Cerca-me um vazio absoluto de fraternidade e de afeição. Mesmo os que me são afeiçoados não me são afeiçoados; estou cercado de amigos que não são meus amigos e de conhecidos que não me conhecem.
Sinto frio na alma; não sei com que me agasalhar. Para o frio da alma não há manta nem capa. Quem o sente não se esquece.
Quer isto dizer que não tenho verdadeiros amigos? Não; eu tenho-os; mas não são meus amigos verdadeiros.
Ai daqueles que foram tocados do transcendental e a quem tudo dói por frio, inexpressivo e distante.»

s.d.
Fernando Pessoa

In: Obra Essencial de Fernando Pessoa, Prosa Íntima e de Autoconhecimento. Edição Richard Zenith, Assírio & Alvim, Abril 2007

Pablo Picasso

[Navegar é preciso; viver não é preciso.]

«[Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa...]
Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa: Navegar é preciso; viver não é preciso. Serve para mim o espírito desta frase, transformada a forma para se casar com o que eu sou. Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso. Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e □ a lenha desse fogo.
Só quero torná-la de toda a humanidade ainda que para isso tenha de a perder como minha.
Cada vez mais assim penso. Cada vez mais ponho na essência anímica do meu sangue o propósito do meu sangue o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir para a evolução da humanidade.»


Fernando Pessoa

In: Obra Essencial de Fernando Pessoa, Prosa Íntima e de Autoconhecimento. Edição Richard Zenith, Assírio & Alvim, Abril 2007
Peter Van velden. 1634-1707


[A Criança que fui chora na estrada]

«A Criança que fui chora na estrada,
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.»


Fernando Pessoa

In Poesia 1931-1935 e não datada, Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Imagem: © Richard Desmarais