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terça-feira, 28 de julho de 2015

Ausência



Isto que chora dentro de mim
como criança a quem prometeram uma estrela,
isto que sinto rasgar-se,
que arde e dói como não sei o quê,
isto que cansa de esperar,
que ri e soluça
e tem sabor a loucura,
isto que tenho dentro de mim
é talvez a saudade do desconhecido,
é por certo a ausência do que não tenho.





 Teresa Sampaio



Adiamento


Dia a dia, hora a hora,
o meu país vai-se adiando.
A memória perde-se nas promessas
de um futuro sempre protelado.
A palavra crise já faz parte
do léxico normal de todos.
A fome e o desemprego
são o pesadelo real
dos que a nada mais têm direito.
A descrença e o desespero
instalaram-se numa rotina
tecida na hipocrisia dos gestos inúteis,
na arquitectura das palavras ocas.
Mas há quem teime em sonhar
e acalente a utopia,
quem forre com o musgo da esperança
esta pequena barca
que navega à deriva
entre os destroços de um projecto,
em direcção às águas límpidas
do oceano sem limites.






 Teresa Sampaio

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

QUADROS COM HISTÓRIA: “O BEIJO”. KLIMT


Sempre me senti fascinada pela apoteose cromática de “O Beijo”, de Klimt. Por entre o fundo de ouro e a base de flores ergue-se uma forma homogénea, que representa a fusão de dois corpos unidos pelo Amor. 
Tudo se passa como se olhasse o sol diretamente, sem filtros. A sedução, que transpassa para o lado de cá, de quem olha, é quase impositiva. As figuras masculina e feminina não se evidenciam apenas pelos rostos e mãos, mas também, mais simbolicamente, pelos padrões dos tecidos que vestem. Ele, com um manto opulento de formas geométricas, mais viris, e ela com imagens arredondadas e floridas, que simbolizam o feminino.
O homem não mostra o rosto, mergulhado que está no enlace da mulher, ruiva, como eram as mulheres pintadas por Klimt, por influência dos Pré-Rafaelitas. A sua virilidade evidencia-se pelo pescoço e mãos fortes, bem como pelo porte imponente. Ela aparenta uma atitude mais passiva e subjugada. Ambos se deixam envolver naquele momento único que antecede o beijo. É o quase e não o já que lhes importa. Saboreiam antecipadamente o esplendor que irão viver. Ajoelham-se numa atitude plena de submissão perante o amor. As flores e folhas envolvem o cabelo de ambos e colorem o tapete que lhes serve de leito. As plantas douradas que envolvem os pés da mulher, são conhecidas como a erva de Parnaso, um antigo símbolo de fecundidade. O próprio pintor cultivava as plantas e flores, que reproduzia nas suas pinturas. Ali estão eles, apaixonados, completamente alheados do mundo, sob uma chuva de ouro e de sol que é o seu êxtase.

“O Beijo” (1907-1908) tem sido considerado uma pintura intensamente erótica, sendo, certamente, a mais célebre e mais reproduzida de Gustav Klimt, repleta de motivos simbólicos e alegóricos, a que não são alheias as descobertas de Jung e Freud. Na Viena de finais do séc. XIX e início do séc. XX, discutia-se abertamente a sexualidade, e o inconsciente, por inficiativa de Freud, contemporâneo de Klimt.

Gustav Klimt (n. 14-7-1862- m. 6-2-1918) era filho de um ourives, e com o pai aprendeu a utilizar as folhas de ouro nas suas obras. Foi, porém, numa viagem a Itália, que se intensificou o gosto pelo dourado, ao conhecer os mosaicos bizantinos da Igreja de San Vitale. “O Beijo” é precisamente considerado o ponto alto da era dourada do pintor. Muitos especialistas pensam que a mulher representada nesta obra é Emilie Flöge, sua companheira e musa preferida. O que importava ao pintor era, no entanto, pintar a mulher, em geral, sexualmente livre.
Klimt representou bem, ao longo da sua obra, a síntese entre o simbolismo e a Arte Nova.

O Beijo é uma festa, um deslumbre, um hino à sedução amorosa.

Atualmente, a obra, de 180x180 centímetros, pode ser vista na Österreichische Galerie Belvedere, no Palácio com o mesmo nome, em Viena, Áustria.


Maria Teresa Sampaio
Fevereiro de 2015

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Ser

É quando a voz se cala
e as palavras  silenciam
que nada apetece
a não ser o murmúrio do vento
nas copas das árvores
ou uma inesperada surpresa de ser


Teresa Sampaio
14-02-2014

sábado, 10 de janeiro de 2015

Je suis moi même

Volto a ser eu mesma, depois do funeral das vítimas do atentado em França e quando se começar a fazer o longo luto do próprio país, pelas razões que aponto de seguida.
Nunca fui partidária do tipo de troça burlesca, sórdida e grotesca que o “Charlie Hebdo” pratica, tal como outras publicações que existiram (não sei se ainda existem) em Portugal e, certamente noutros países, que assestam todas as suas baterias contra uma vítima e não a largam.

Chegada a este ponto, faço um parêntesis. Toda esta matéria é muito delicada porque coloca em jogo as sensibilidades e idiossincrazias de cada um, a sua religião, agnosticismo ou ateísmo, a liberdade de imprensa, os gostos, a cultura e os costumes.
Não gosto de ver satirizada, sistematicamente, perversamente, a religião islâmica, como não gostaria de ver, do mesmo modo, a religião católica, protestante, hebraica, hindu, etc. Porquê? Porque sou simplesmente do género humano.

Chegada a este ponto, quase caía na tentação de dizer: ”há limites para tudo!”. Mas, então, estaria a pôr em causa a liberdade de imprensa e isso, eu não quero, nem sou capaz.

Mas sou capaz, isso sim, de, por imperativo categórico, por uma razão, não só, mas também de caráter convictamente humanista, não ter determinadas práticas ofensivas das religiões, cultura e costumes de outras pessoas diferentes de mim. Porquê? É simples: não os quero ofender nem lhes quero causar qualquer tipo de dano. A minha liberdade acaba onde começa a do outro. Neste caso, (sublinho neste caso) houve razões de sobra para ser solidária com os cartonistas, com o polícia, ou, simplesmente, pessoas barbaramente executadas no ataque em França, mas também com os judeus e com o povo francês.

Por outro lado, afirmo-me pela positiva e tento fazer aos outros o que gostaria que eles me fizessem, prática que todos sabemos difícil em certas ocasiões. Eu sei que Kant anda, algures, a passear por este texto e pelo meu pensamento e não me importo nada, porque julgo-me incapaz de lesar outrem, de livre vontade, na posse da totalidade das minhas faculdades mentais. Coloco de fora o uso de legítima defesa, por razões óbvias.

É por tudo isto que volto a ser eu mesma e não Charlie.

10/11 de janeiro de 2015

Maria Teresa Sampaio

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

UM QUADRO COM HISTÓRIA - "GUERNICA", de PABLO PICASSO.


Guernica é uma cidade basca, na província de Biscaia, que, às 6:30 horas da manhã de 2.ª feira,  26 de Abril de 1937, durante a Guerra Civil de Espanha, foi bombardeada durante quase duas horas e arrasada pela força aérea de Hitler (Luftwaffe – Legião Condor), que apoiava as forças nacionalistas de Franco. A atrocidade dos atos então cometidos impulsionaram Pablo Picasso a pintar esta obra que, para sempre, ficaria como um libelo vibrante contra os horrores da guerra.
Foi este o painel que o artista pintou em resposta a uma encomenda que lhe tinha sido feita pelo Governo Republicano, a fim de figurar na Feira Mundial de Paris, [Exposition Internationale des Arts et Techniques dans la Vie Moderne ], em 1937.
A residir, então, na capital francesa, Picasso tomou conhecimento, pelos ecos da comunicação social, do horror da intervenção alemã e franquista. A inspiração não podia ser outra, embora outros esboços tivessem sido previamente experimentados. Para lá de uma posição política esta obra é, muito mais, uma demonstração do poder da arte manifestar um protesto contra a violência, o caos e a morte que resultam da guerra.
Diversas são as interpretações que continuam a ser dadas a todos os elementos que fazem parte desta pintura a preto, branco e cinzento. Picasso recusou-se sempre a revelar qualquer sentido oculto. Pressionado a explicar o que representavam o boi e o cavalo, disse: ... “este boi é um boi e o cavalo é um cavalo… Se derem um significado a certas coisas nas minhas pinturas pode ser verdade, mas não é ideia minha dar-lhe esse significado.” Porém, em “O Sonho e a Mentira de Francisco Franco”, também de 1937 embora anterior à Guernica, Picasso satiriza o ditador numa série de desenhos, representando-o como um monstro que devora o seu próprio cavalo e depois luta com um touro enraivecido.
Ao trabalhar no mural, Picasso disse: " A Guerra de Espanha é a luta da reação contra o povo. Toda a minha vida como artista tem sido uma luta contínua contra a reação e a morte da arte. Como pôde alguém pensar por um momento que eu estivesse de acordo com a reação e a morte?... No painel em que estou a trabalhar, a que chamarei “Guernica” e em todos os meus recentes trabalhos, claramente exprimo a minha aversão à casta militar que afundou a Espanha num oceano de dor e morte.”
À entrada do pavilhão espanhol na Feira Internacional de Paris, onde a “Guernica” foi pela primeira vez apresentada, estava um enorme painel fotográfico dos soldados republicanos, onde se podia ler:
“Lutamos pela unidade essencial de Espanha.
Lutamos pela integridade do solo espanhol.
Lutamos pela independência do nosso país e pelo direito do povo espanhol escolher o seu destino.”

A exibição de “Guernica” era acompanhada por um poema de Paul Éluard.
Depois de Paris, esta obra maior da arte universal percorreu vários países do mundo, em toda a parte sendo recebida como um louvor à Paz e uma veemente denúncia da violência e da guerra.


LA VICTOIRE DE GUERNICA

I

Beau monde des masures
De la nuit et des champs

II

Visages bons au feu visages bons au fond
Aux refus à la nuit aux injures aux coups

III

Visages bons à tout
Voici le vide qui vous fixe
Votre mort va servir d'exemple

IV

La mort coeur renversé

V

Ils vous ont fait payer le pain
Le ciel la terre l'eau le sommeil
Et la misère
De votre vie

VI

Ils disaient désirer la bonne intelligence
Ils rationnaient les forts jugeaient les fous
Faisaient l'aumône partageaient un sou en deux
Ils saluaient les cadavres
Ils s'accablaient de politesses

VII

Ils persévèrent ils exagèrent ils ne sont pas de notre monde
VIII

Les femmes les enfants ont le même trésor
De feuilles vertes de printemps et de lait pur
Et de durée
Dans leurs yeux purs

IX

Les femmes les enfants ont le même trésor
Dans les yeux
Les hommes le défendent comme ils peuvent

X

Les femmes les enfants ont les mêmes roses rouges
Dans les yeux
Chacun montre son sang

XI

La peur et le courage de vivre et de mourir
La mort si difficile et si facile

XII

Hommes pour qui ce trésor fut chanté
Hommes pour qui ce trésor fut gâché

XIII

Hommes réels pour qui le désespoir
Alimente le feu dévorant de l'espoir
Ouvrons ensemble le dernier bourgeon de l'avenir

XIV

Parias la mort la terre et la hideur
De nos ennemis ont la couleur
Monotone de notre nuit
Nous en aurons raison.

Paul Eluard, Cours naturel, 1938


Guernica
Pablo Picasso
1937
Pintura a óleo
3,49m. x 7,76m.
Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia, em Madrid.


Dezembro de 2014
mts

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Devagar


Devagar amor. Deixa o fogo penetrar lentamente
o leito húmido e suave do meu ser.
Não distraias o olhar senão no meu corpo.
Não fales. Ou melhor, murmura-me ao ouvido
aquilo que eu já sei mas tanto gosto de ouvir.
Não percas as tuas mãos em gestos inúteis,
deixa-as atear o lume deste tempo sem limites.
Devagar amor. Poisa as pétalas dos teus lábios
nos meus olhos guardadores de todos os astros
e vem mais lentamente ainda abrigar-te,
repousar à sombra do meu cansaço de criança feliz.
Devagar amor. Não vás deixar apagar as brasas.
Não suporto cinzas nem palavras sem sentido,
nem gestos bolorentos, nem um até amanhã displicente
como se a noite tivesse acabado
ao romper breve da madrugada.
Deixa-te estar imerso na minha ilha
e vem descobrir a música do silêncio
que eu compus para ti
com a cumplicidade de milhões de violinos
escondidos nas estrelas.



Teresa Sampaio

"Lovers" by Yves Pires.France