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sábado, 1 de outubro de 2016

Dia Internacional do Idoso (1 de outubro)

O Dia Internacional do Idoso, que se comemora anualmente a 1 de outubro, foi instituído em 1991 pela ONU, com o objetivo de sensibilizar a sociedade para as questões do envelhecimento, proteger, cuidar e acarinhar a população mais idosa.
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Velhinha

Se os que me viram já cheia de graça
Olharem bem de frente em mim,
Talvez, cheios de dor, digam assim:
“Já ela é velha! Como o tempo passa! ...”

Não sei rir e cantar por mais que faça!
Ó minhas mãos talhadas em marfim,
Deixem esse fio de oiro que esvoaça!
Deixem correr a vida até o fim!
Tenho vinte e três anos! Sou velhinha!
Tenho cabelos brancos e sou crente ...
Já murmuro orações ... falo sozinha ...
E o bando cor-de-rosa dos carinhos
Que tu me fazes, olho-os indulgente,
Como se fosse um bando de netinhos ...
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Florbela Espanca
In "Livro de Mágoas"


Gustav Klimt. As Três Idades da Mulher.1905. 

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

MARIA: Amo como o amor ama

             MARIA: 

Amo como o amor ama.
Não sei razão pra amar-te mais que amar-te.
Que queres que te diga mais que te amo,
Se o que quero dizer-te é que te amo?
Não procures no meu coração...
Quando te falo, dói-me que respondas
Ao que te digo e não ao meu amor.
Quando há amor a gente não conversa:
Ama-se, e fala-se para se sentir.
Posso ouvir-te dizer-me que tu me amas,
Sem que mo digas, se eu sentir que me amas.
Mas tu dizes palavras com sentido,
E esqueces-te de mim; mesmo que fales
Só de mim, não te lembras que eu te amo.
Ah, não perguntes nada, antes me fala
De tal maneira, que, se eu fora surda,
Te ouvisse toda com o coração.
Se te vejo não sei quem sou; eu amo.
Se me faltas, (...)
Mas tu fazes, amor, por me faltares
Mesmo estando comigo, pois perguntas
Quando deves amar-me. Se não amas,
Mostra-te indiferente, ou não me queiras,
Mas tu és como nunca ninguém foi,
Pois procuras o amor pra não amar,
E, se me buscas, é como se eu só fosse
O Alguém pra te falar de quem tu amas.
Diz-me porque é que o amor te faz ser triste?
Canso-te? Posso eu cansar-te se amas?
Ninguém no mundo amou como tu amas.
Sinto que me amas, mas que a nada amas,
E não sei compreender isto que sinto.
Dize-me qualquer palavra mais sentida
Que essas palavras que, como se as perderas,
                                                               buscas
E encontras cinzas.
Quando te vi, amei-te já muito antes.
Tornei a achar-te quando te encontrei.
Nasci pra ti antes de haver o mundo.
Não há coisa feliz ou hora alegre
Que eu tenha tido pela vida fora,
Que não o fosse porque te previa,
Porque dormias nela tu futuro,
E com essas alegrias e esse prazer
Eu viria depois a amar-te. Quando,
Criança, eu, se brincava a ter marido,
Me faltava crescer e o não sentia,
O que me satisfazia eras já tu,
E eu soube-o só depois, quando te vi,
E tive para mim melhor sentido,
E o meu passado foi como uma estrada
Iluminada pela frente, quando
O carro com lanternas vira a curva
Do caminho e já a noite é toda humana.
Tens um segredo? Dize-mo, que eu sei tudo
De ti, quando m'o digas com a alma.
Em palavras estranhas que m'o fales,
Eu compreenderei só porque te amo.
Se o teu segredo é triste, eu saberei
Chorar contigo até que o esqueças todo.
Se o não podes dizer, dize que me amas,
E eu sentirei sem qu'rer o teu segredo.
Quando eu era pequena, sinto que eu
Amava-te já hoje, mas de longe,
Como as coisas se podem ver de longe,
E ser-se feliz só por se pensar
Em chegar onde ainda se não chega.
Amor, diz qualquer coisa que eu te sinta!
                FAUSTO:

Compreendo-te tanto que não sinto.
Oh coração exterior ao meu!
Fatalidade filha do destino
E das leis que há no fundo deste mundo!
Que és tu a mim que eu compreenda ao ponto
De o sentir...?

                MARIA:

Para que queres compreender
Se dizes qu'rer sentir?
s.d.
Fernando Pessoa 
In Fausto - Tragédia Subjectiva. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha. Prefácio de Eduardo Lourenço.) Lisboa: Presença, 1988.
  
 Sir Thomas Francis Dickseee. 1819-1893

sábado, 24 de setembro de 2016

A Casa

A Casa é mais do que paredes.
É ninho. 
É barco e porto de abrigo.
É tempo de todas as estações do ano.
É universo onde há sol e luar,
onde se cruzam todas as aves
e se falam todos os idiomas.
É floresta onde passeiam sonhos
e dança a imaginação.
A Casa é este portal
que nos acolhe e nos assombra,
por vezes paz, por vezes tormenta.

mts

[Não fales alto, que isto aqui é vida -]

Não fales alto, que isto aqui é vida —
Vida e consciência dela,
Porque a noite avança, estou cansado, não durmo,
E, se chego à janela,
Vejo, de sob as pálpebras da besta, os muitos lugares das estrelas…
Cansei o dia com esperanças de dormir de noite,
É noite quase outro dia. Tenho sono. Não durmo.
Sinto-me toda a humanidade através do cansaço —
Um cansaço que quase me fez carne os ossos…
Somos todos aquilo…
Bamboleamos, moscas, com as asas presas,
No mundo, teia de aranha sobre o abismo.

21 - 10 - 1931
Álvaro de Campos



Poema em Linha Reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. 

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo. 

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos, 
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo? 
Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra? 
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Álvaro de Campos
André Kertész (1894-1985)

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

ESQUECIMENTO


Nestes dias de esperança recôndita
caminho sonâmbula com humor alegre
e, apesar de tudo, com a alma esbraseada.
Esqueci o teu nome
à força de soletrar esquecimento.
Busquei nas cinzas que deixaste
uma brasa ardente a que peguei
o fogo de um novo incêndio.
Aprenderei outro amor
a que darei nome de nuvem.
Digo-te adeus sem azedume
e parto sem mágoa
secos como estão os meus olhos
cansados de lágrimas.

O amor, sabes, morre naturalmente
como planta frágil que não é regada.
Mas, também renasce, por vezes
com um olhar incandescente ou
um sorriso recortado em luar.

Tu foste. Passaste.
Eu sou.
Eu vivo e amo...

 Maria Teresa Sampaio
Richard Burlet







quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Brasa

0lho a rosa que nasce dos teus lábios,
as estrelas no fundo líquido do teu olhar
e enlouqueço de alegria
quando me colhes como flor selvagem
e me presenteias com beijos ávidos.
Deixamo-nos envolver até à claridade maior da alma,
nas visões e nos encantos milenares
deste fogo que nos consome na volúpia de existir.
Cada dia, cada momento, à beira de nada e de tudo.
Vamos pela vida a caminho do desconhecido
sem nada esperar, para melhor
colher alegrias e surpresas.

E é isso que tu, melhor do que ninguém, sabes fazer,
entregares-te sem reservas nos meus braços  e amares–me
como se estivéssemos fora do tempo e das sombras.

Ai, amor, amor, abandonemo-nos no silêncio
mesclado de sentidos que tão bem entendemos.
Fiquemos assim abraçados, olhar no olhar, mãos nas mãos,
sem nada esperar. Sabendo que tudo pode sempre acontecer.

Para além de todos os limites, de espaço e de tempo,
voamos, tu e eu, com asas entretecidas de sonhos,
rumo a um horizonte sem fim.


Maria Teresa Sampaio

Christian Schloe (Áustria)