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terça-feira, 29 de setembro de 2015

QUADROS COM HISTÓRIA: “AT ETERNITY’S GATE”, DE VAN GOGH

Dois meses antes da morte, Van Gogh terminou a obra “No limiar da Eternidade”, nela expressando a angústia que o assoberbava e a luta de contrários em que se digladiava, até ao suicídio. Como tinha sido estudioso da Bíblia e pregador, transmitiu em toda a sua obra e especialmente neste trabalho a simbologia religiosa da sua atormentada vida. Naturalmente, que se pode observar apenas o que é visível diretamente ao olhar. Contudo, a simbologia está lá, impõe-se e é determinante para a leitura ou explicação do quadro.
Este trabalho, terminado em maio de1890, num asilo em Saint-Rémy de Provence, onde o artista convalescia de uma severa recaída da sua saúde, é, talvez, o mais simbólico e espiritual do conjunto da sua obra. Teve como ponto de partida uma litografia, e por base desenhos a lápis, estudos, que — sabemos hoje, através de uma carta que o pintor escreveu ao irmão e único amigo, Theo — tiveram como inspiração um pensionista, veterano de guerra.

Van Gogh traçou, então, um velho, calvo, vestindo um fato inteiro de trabalhador, em bombazina azul, com os cotovelos cravados nas pernas e as mãos, enegrecidas pelo trabalho,  enclavinhadas, ocultando completamente o rosto. Quando escreveu ao irmão, disse-lhe: «penso que um pintor tem o dever de tentar transmitir as ideias no seu trabalho». E acrescentou que isso está para além de toda a teologia.
Van Gogh acreditava que a existência de Deus e a eternidade deviam transparecer na pintura daquele idoso, porque os mais pobres lenhadores, agricultores ou mineiros podiam ter, conforme escreveu, momentos em que se sentissem perto do “lar eterno”.
O artista tinha experimentado a miséria dos mineiros quando fora missionário numa região de minas de carvão belga, tendo decidido passar radicalmente pelas mesmas dificuldades e dormir na palha de uma cabana. Aspirava a ser um artista ao serviço de Deus. Por isso não é estranho, que a própria depressão e estados mentais extremos, para além das crenças religiosas, influenciassem de forma explícita a sua obra.
Em “No Limiar da Eternidade” os símbolos religiosos estão presentes no todo. A coloração azul, sugerindo a depressão e a angústia, mas também a sabedoria, predomina no quadro. Dela se veste o ancião, que é a figura central da obra. A seus pés, a lareira, em que os toros de madeira simbolizam, tal como as tábuas do chão e a cadeira, o sacrifício de Cristo na cruz. O fogo é a purificação  e a possibilidade de ascensão até ao absoluto.

As mãos, enegrecidas pelo trabalho pesado, bem como a posição do corpo, ligeiramente inclinado, revelam uma postura que não é só desespero mas também humildade. A cabeça, onde rareiam os cabelos, exprime a solidão da velhice e a proximidade da morte, que não é, contudo, o fim. Bastaria observar a pintura nestes termos, se não fosse a expressão em inglês com que o próprio autor titulou o seu trabalho: At Eternity's Gate”.

É o título que muda radicalmente o sentido da obra. Já não basta, então, ver um pobre velho desesperado, atravessando um momento de dor e profunda tristeza.
A própria vida aparece como uma hipótese de redenção, que se cumpre na eternidade. 

29 de setembro de 2015
mts

At Eternity's Gate

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