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terça-feira, 17 de junho de 2014

Cordão geracional

Tudo começou pelos meus pais, Sérgio dos Santos Sampaio (nascido em Santar, Viseu, a 13 de julho de 1919 - morreu em Lisboa, num dos mais tristes dias da minha vida, 19 de Novembro de 1975) e Maria da Guia dos Santos Ferreira Sampaio (nascida em Tavarede, Figueira da Foz, a 11 de junho de 1921), que, por volta de 1945 se encantaram um pelo outro, na Baixa Lisboeta.
Não quiseram ficar sós e deram-me origem no outono de Lisboa, a 28 de Novembro de 1947, dois anos depois da II Guerra Mundial e, provavelmente, ao som de "In the mood" de Glenn Miller. Gosto de imaginar que foi assim.
De mim e da semente do  meu ex-marido Fernando, com quem me tinha casado em 1969, brotaram o meu filho Pedro, a 23 de março de 1971, andava eu em Direito, e, menos de catorze meses depois, chegou a minha filha, Catarina, a 15 de Maio de 1972, tinha eu mudado para Filosofia, ali mesmo em frente, na Cidade Universitária de Lisboa, onde tudo acontecia... 
Vivia eu os tempos atribulados das lutas estudantis e os últimos anos da militância clandestina. 
Éramos ambos muito jovens, idealistas e eu particularmente inocente.

Agora, descubram as parecenças, se vos apetecer....

              
Pai

Mãe

Eu

Pedro

Catarina

mts

Diário da minha mãe

17 de junho de 2014.

Hoje, tive apenas, como nos dias anteriores, desde o internamento a 14, dez minutos, para estar com a minha mãe.
Estava só, perdida numa sala pequena, apenas com a cama-maca, sentada num cadeirão, muito chegadinha a um canto, como que a proteger-se de todos os estranhos e de quem lhe podia “fazer mal”. Mais uma vez tinha sido amarrada de noite. Os braços, magros, estão negros. As pernas estão negras pelo rebentamento das veias. E ninguém lhe põe pomada nos braços nem creme nas pernas para aliviar a secura da pele, Para quê preocuparem-se com úlceras venosas se o que a minha mãe tem é pneumonia e Alzheimer...?
Falta carinho. Falta a alguns profissionais de saúde o sentido de missão, de que estão a tratar seres humanos. Não lhes passa pela cabeça que, um dia, poderá acontecer-lhes o mesmo a eles.

A minha mãe está para ali…

- Amanhã trago-te o creme e a pomada e ponho-tos, mãezinha, prometi, embora saiba que não estou autorizada a deixar lá nada. Terei de levar e de trazer tudo, todos os dias.

A minha mãe, estranhamente, sabia que dia do mês era hoje, e preocupada com o que teria de pagar por estar no hospital (público), perguntava-me, ansiosa:

- Quanto tenho de pagar? E tu, filha, já pagaste alguma coisa?

Sosseguei-a, mas sei que amanhã e depois, e depois, me fará mesma pergunta, que já ontem fez. É assim, o Alzheimer.

Subitamente dá um salto no tempo e preocupa-se com o que já não tem de se preocupar. Não sabe que está no hospital. Desconhece que tem uma pneumonia.

Está para ali…

Tudo lhe é estranho e penoso.
Acolhe-me com alegria, o que me emociona.
Cubro-lhe a cara de beijos, os olhos, o pescoço também. À chegada e à partida.
Murmura: querida filha.
Não é normal este tratamento, durante uma infinidade de anos asfixiado e, por isso, uma estranha maresia molha-me os olhos.
Forçam-me a deixá-la. Terminou o tempo da visita.

Que tempo é este? Nada linear. Com cortes, regressos constantes ao passado, um presente envenenado e um futuro que se deixa antecipar terrivelmente triste.
Amanhã voltarei de novo.

A minha mãe está para ali…


mts


11 de Junho de 1980. 59 anos


 1 de dezembro de 2013. 92 anos.

terça-feira, 10 de junho de 2014

Cúmplice

Cúmplice é todo aquele que carrega a canga e ainda ajoelha para beijar a mão do opressor.
Cúmplice é todo aquele que se cala e deixa passar.
Cúmplice é todo aquele que fecha os olhos à miséria alheia.

Cúmplice é todo aquele que, tendo ao seu alcance poder e meios para tornar menos penosa e infeliz a situação da maioria das pessoas mais carenciadas, se alia aos poderosos e os torna ainda mais influentes numa sociedade, já de si, desigual.
Cúmplice é todo aquele que pactua com a injustiça, a ignorância e a corrupção, fechando a boca, os olhos, os ouvidos, as mãos também e ainda as portas, sorrateiramente.

mts



Vã Glória

Dizia GOETHE que  "só sabemos com exatidão quando sabemos pouco. À medida que vamos adquirindo conhecimentos, instala-se a dúvida"

Disse CAVACO: "Eu nunca me engano e raramente tenho dúvidas."

Conhecendo nós a sabedoria de que Goethe deu provas na prática;
Sabendo nós, infelizmente, pela prática inoperante e irritante, a que somos submetidos há quase 20 anos por Cavaco Silva, que o senhor exerce os seus mandatos sem ponderação nem coragem:
Sabendo nós que dá provas, muitas vezes através do tabu -  prática que ele aprimorou como ninguém - de não CONHECER  o verdadeiro uso da res pública a bem de todos, com justiça e sem exceções;

Só posso deduzir, logicamente, que o homem que exerce o cargo de Presidente da República de Portugal não sabe nada, ou quase nada -  vá -, para não ser acusada de radicalismo.

Como estamos no Dia de Portugal e de Camões, atrevo-me a citar o valoroso bardo, porque é assim que eu me sinto, cansada que estou de esperar e vendo ainda um longo tempo à frente para exercer a virtude da paciência, sem desespero:

"Acho-me da Fortuna salteado;
o tempo vai fugindo pressuroso,
deixando-me da vida duvidoso
e cada instante mais desesperado"

mts




segunda-feira, 9 de junho de 2014

Aonde?

Ando a chamar por ti, demente, alucinada,
Aonde estás, amor? Aonde... aonde... aonde?...
O eco ao pé de mim segreda... desgraçada...
E só a voz do eco, irónica, responde!

Estendo os braços meus! Chamo por ti ainda!
O vento, aos meus ouvidos, soluça a murmurar;
Parece a tua voz, a tua voz tão linda
Cantando como um rio banhado de luar!

Eu grito a minha dor, a minha dor intensa!
Esta saudade enorme, esta saudade imensa!
E só a voz do eco à minha voz responde...

Em gritos, a chorar, soluço o nome teu
E grito ao mar, à terra, ao puro azul do céu:
Aonde estás, amor? Aonde... aonde... aonde?...

FLORBELA ESPANCA



Dante Gabriel Rossetti. Veronica Veronese, 1872

quarta-feira, 4 de junho de 2014

TRADUTOR DE CHUVAS.

Sazonais eternidades

Abres-me, janela,
e antigas memórias
me salpicam o rosto,
chuvas ainda por desabar.

Escancaradas portadas,
devolvem-me o corpo,
esse mesmo corpo
que, para febre e desejo,
em outro corpo acendi.

Abres-me, saudade
e o tempo se descalça
para atravessar
incandescentes brasas.

E quando,
de novo me encerras,
volto a dormir
como dormem os rios
em véspera de serem água.

A saudade
é o que ficou
do que nunca fomos.

 ***

Que dizer mais de um escritor que já escreve sempre em prosa poética e, depois, ainda escreve só poesia?
Socorro-me das suas palavras, que exprimem melhor o que eu penso e não sei dizer.

“O poeta
faz agricultura às avessas:
numa única semente
planta a terra inteira.”

É o que Mia Couto faz intermitentemente. Vive apenas fora de si, captando sonhos perdidos, gestos apenas esboçados, palavras que só ele sabe, para nos ensinar-encantar.

“Apenas de outros me faço eu”

Que mais poderei eu dizer que não caiba em plena redundância?
Gostei muito. Sorvi cada sentimento, cada palavra e de ele me fiz eu.


mts


Mia Couto. Poesia. Tradutor de Chuvas. Caminho, 2011

domingo, 1 de junho de 2014

Fazer acontecer.

Tempo de flores e de renascimento.
Tempo de ouvir, mais do que falar.
Tempo de compreender e meditar.
Tempo de gostar do silêncio 
para nele nos encontrarmos.
Tempo de ter coragem e sabedoria.

Tempo que passa tão depressa.

Se não o apanhamos,
deixamo-lo escoar como areia entre os dedos,
e mais tarde lamentaremos a indecisão,
a falta de lucidez necessária,
para atuar sem receio e com determinação.

Tempo de amadurecer e de Saber.
Tempo de viver cada momento presente,
projetando nele a imagem do que

deverá ser o amanhã.

Tempo de decidir e de fazer acontecer.

mts.




Alphonse Mucha (Czech, 1860-1939).