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domingo, 29 de setembro de 2013

Conforto

Falarei convosco.

Contar-vos-ei os meios temores.
As minhas desilusões também.
Nada impede que o faça.
Tudo à volta está confuso, inseguro.
O que julgávamos certo já não o é mais.
Os sonhos que sonhámos são grãos de poeira.
Não há futuro e o presente é doloroso.
Os anos passaram e o que era para ser não foi.

Ó meu Deus ajudai-me nesta travessia.
Dai-me força interior e uma fé
Capaz de tudo enfrentar com sabedoria.
Que eu seja melhor a cada momento,
Mais humilde, mais serena,
Mais despegada desta vida e, não obstante,
Mais próxima dos outros e de vós, Senhor.

Cada minuto, cada hora, cada dia, cada ano,
São degraus e são pedras, são luz e são sombra.

Falarei convosco
E vós me confortareis.

Teresa Sampaio

Salvador Dali

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Perninhas e pintinha

A Adriana iniciou as aulas do 1.º ano (Básico).

Lembro-me ainda, tal terá sido o trauma (!), que quando passei para a 1.ª classe (chamava-se assim ao 1.º ano), fugi – literalmente – para a infantil – que ficava numa sala quase ao lado, na mesma escola.
Provavelmente não queria perder a brincadeira com que vivia cada dia (e viveria até á Faculdade!). Desconheço se era essa a razão.

Pois a Adriana, que por acaso também é palhaça como a avó Teresa e o pai – anda numa excitação e com uma alegria tão esfusiante desde o primeiro dia, que contagia todos.
Claro que, como já é uma crescida, deixou de dormir a sesta diariamente desde o último ano da creche. Mas quando chega o fim de semana, não resiste a uma boa soneca.
Cada dia é uma descoberta e a Adriana já queria estar no ano seguinte e saber ler. Quer saltar etapas com a rapidez com que o tempo voa para os já avós, mas que, para as crianças parece lento como a eternidade.

A primeira assinatura do seu nome próprio foi uma festa. Agora anda a aprender a fazer o – i .
Então, ontem, a mãe, quando passou pelo corredor, percebeu que a filha estava a desenhar os - i - quando ouviu a Adriana, com aquela vozinha de criança, que todos adoramos, repetir, numa suave cadência:

perninha para cima
perninha para baixo
pintinha.

Com esta melopeia dá música às letras e uma nova vibração à casa, o que me leva a imaginar que, quando souber o alfabeto todo, teremos direito a representação…
  


segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Se ao menos...

As vozes deles arranham-me a alma.
As promessas deles caem em terra infértil.
Agridem-me com as palavras falsas.
Usurpam os meus direitos.
Despojam-me de tudo.

Se ao menos pudesse recuperar
a Esperança, que me tiraram,
Se ao menos o futuro fosse uma
garantia.
Mas como? Se eles destroem o presente
e atrevem-se esbulhar o passado.

Se ao menos a vida
se pudesse pescar já com garantia
contra falsos governantes,
contra políticos corruptos,
contra a Troika e o FMI.


Se ao menos…


Fotografia de © Беляев Александр

sábado, 21 de setembro de 2013

Pátria com fome

Que e o coração vos doa como se uma faca se lhe espetasse,
que o vosso sono seja revolto por pesadelos
que os vossos dias sejam escuros e sem lucros.
que o dinheiro escasseie nas vossas casas.

Só assim podereis ter uma pálida imagem
do que os outros sofrem.

Falo de vós, os responsáveis,
falo de vós os que calais e apoiais,
falo de vós que dizeis - é a vida, sempre assim foi,
falo de vós que, sem querer dar nas vistas,
sois coniventes e ides votar de novo neles.

Falo de todos vós que não tendes vergonha
nem honra, nem dignidade, nem solidariedade.

Falo de vós que não sabeis o que é a
Pátria.


Porto. Fila para a distribuição de alimentos.
Foto de Paulo Pereira

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Ao menos isso...

Ele falou, falou e disse: 
Acabe-se com o que falta para dar cabo da vida dos portugueses. 
O País precisa de empobrecer!
Os jovens  que emigrem!
Os desempregados que sejam criativos.
Os reformados não podem descansar depois de toda uma vida de trabalho. Que a bolsa lhes seja aliviada!


Mas os ricos e poderosos,  fiquem descansados. Nada temam..
Extermine-se os que nada têm e deixe-se morrer lentamente, à fome e por falta de medicação, os reformados pobres.
Para ele, só os poderosos merecem ser poupados. 
Nós pagamos para eles e por eles.
Uns terão que deixar o seu país em busca do trabalho que aqui lhes é negado. 
Outros continuarão a dar as casas aos Bancos, a comer a sopa do Sidónio e a fazer filas para receberem mantimentos do Banco Alimentar, para matarem a fome aos filhos e a própria. As crianças – ele não se lembrou delas – se  comerem uma refeição por dia na escola e se conseguirem livros para estudar nos bancos de trocas  de manuais escolares, podem considerar-se felizes.  Outros terão de enganar o estômago com uma restos de comida dos caixotes do lixo. 
Mas isso que importa?

Ele falou. Falou. Disse o que ninguém queria ouvir.
Mas ele é surdo aos clamores indignados. Escapa-se pelas traseiras. Já tem prática.

Uns dirão que é fado nosso. Outros, que a culpa é da Troika.

Ele que não se incomode: somos os bons alunos da Europa e disciplinados. Temos uma herança de 48 anos de ditadura. 
Por que haveríamos nós de nos indignar agora, quando já nos cansámos a fazer o 25 de Abril de 1974 e perdemos tudo?
Perdão. Tudo não. Ficou-no-nos a Liberdade. É por isso que aqui estamos a dizer o que pensamos.
Ao menos isso....


Fotografias de André Boto

Assombro

Eis-me no centro do assombro,
onde não há distinção nenhuma
entre ser queimado e ser fogo.
No centro do assombro,
mordido pelas chamas
e a mordê-las.

Carlos de Oliveira
In Descida aos Infernos


Tantas vezes me lembro deste poema, quantas as pessoas e circunstâncias que me alarmam de espanto e me ferem. Como quando se estilhaça em mil vidrinhos o caleidoscópio dos sentimentos. Nenhuma afirmação se adequa melhor do que esta de Carlos de Oliveira, quando deambulamos, perdidos, “no centro do assombro”  e nos deparamos com a extrema incomodidade do espanto de existir. Entre o que mordemos e o que nos morde, não há grande diferença. Entre o fogo que nos consome e aquele que ateamos o sinal de união é o mesmo que nos separa.
Os muros que outros erguem são também aqueles que deitamos abaixo para conquistar a liberdade.

Porque de tanto se viver, de tanto de sonhar, ou de tanto imaginar, o ponto de partida acaba por se confundir com o ponto de chegada, no extremo da assombração.



domingo, 15 de setembro de 2013

Partir e deixar o nojo para trás.

Num dia sem cor nem memória.
Apenas tinha o som do desespero.

Partiu. Em busca de futuro.

Tinha habilitações superiores. Tinha experiência. Ainda tinha orgulho.
Mas tinha perdido o essencial, a Esperança no seu país.
Se ficasse, seria, em breve, mais um sem-abrigo, a alinhar nas filas para a sopa.
O linguajar dos governantes e dos outros, que ocupavam o seu país em part-time, eram-lhe odiosos.
Tinham o sabor acre da corrupção e da mentira.
Todos eles eram sequazes dos que mais tinham e mais podiam. Alimentavam-lhes a ganância e espoliavam os mais fracos e desprotegidos.

Partiria sim

Recomeçaria tudo num outro lugar, onde existisse emprego para todos, onde lhe pagassem o seu trabalho justamente, onde pudesse educar livremente os seus filhos, onde tivesse cuidados de saúde universalmente atribuídos, onde, mais tarde, quando se reformasse não lhe usurpassem parte da sua pensão. 
Aliás, onde não lhe usurpassem nada. Nunca.

Deixava o nojo para trás.


© Brian Day.