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quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Centenário do primeiro fragmento para o Livro do Desassossego

Há 100 anos, em Agosto de 1913, era publicado, na revista “A Águia”’ o primeiro fragmento pertencente ao "Livro do Desassossego", que Fernando Pessoa sinalizava como L. do D. Tratava-se do extenso texto, “A Floresta do Alheamento”, assinado, não por Bernardo Soares, mas por Vicente Guedes, o primeiro nome de autor a que Pessoa atribuíu a obra.

Aqui ficam apenas umas escassas linhas para lembrar “A Floresta do Alheamento”.

Sei que despertei e que ainda durmo. O meu corpo antigo, moído de eu viver, diz-me que é muito cedo ainda... Sinto-me febril de longe. Peso-me, não sei porquê... 
      Num torpor lúcido, pesadamente incorpóreo, estagno, entre o sono e a vigília, num sonho que é uma sombra de sonhar. Minha atenção bóia entre dois mundos e vê cegamente a profundeza de um mar e a profundeza de um céu; e estas profundezas interpenetram-se, misturam-se, e eu não sei onde estou nem o que sonho. 
      Um vento de sombras sopra cinzas de propósitos morno sobre o que eu sou de desperto. Cai de um firmamento desconhecido um orvalho morno de tédio. Uma grande angústia inerte manuseia-me a alma por dentro e, incerta, altera-me, como a brisa aos perfis das copas. 
      Na alcova mórbida e morna a antemanhã de lá fora é apenas um hálito de penumbra. Sou todo confusão quieta... Para quê há-de um dia raiar?... Custa-me o saber que ele ralará, como se fosse um esforço meu que houvesse de o fazer aparecer. 
      Com uma lentidão confusa acalmo. Entorpeço-me. Bóio no ar entre velar e dormir, e uma outra espécie de realidade surge, e eu em meio dela, não sei de que onde que não é este... 
      Surge mas não apaga esta, esta da alcova tépida, essa de uma floresta estranha. Coexistem na minha atenção algemada as duas realidades, como dois fumos que se misturam. 
      Que nítida de outra e de ela essa trémula paisagem transparente!...






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