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quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Fome a abstenção

Num relatório hoje divulgado, a ONU estima que, apesar de alguns progressos já obtidos, uma em cada oito pessoas sofre de fome crónica no mundo,
Pode ler-se ainda no relatório que: “A grande maioria das pessoas que sofrem de fome crónica, ou seja, que não têm alimentos suficientes para uma vida saudável e ativa, estão nos países em desenvolvimento, mas há 15,7 milhões a viver em países desenvolvidos”
“A África Subsaariana fez progressos modestos e continua a região com a mais alta prevalência de subnutrição, com uma em quatro pessoas (24,8%) a passar fome”
Continuamente chegam à Sicília e também ao sul de Espanha, barcos carregados de pessoas, fugindo da guerra e da fome. Muitas morrem à beira da praia, sem força já para a alcançar. Vêm no limite de tudo, subnutridos, maltratados, mas, apesar de tudo, ainda movidos por uma réstia de esperança. Afinal de contas, não é difícil encontrar uma realidade melhor do que a desgraça de onde saíram e a Europa representa o eldorado.
Mas, na Europa também se vive mal e se tem fome. Pensamos logo na Grécia e em Portugal, onde uma violenta e irracional política de austeridade aplicada maioritária e desigualmente aos mais desprivilegiados, tem criado cada vez mais desemprego e fome.
Portugal tende a ser o país do mundo com mais desigualdades sociais, graças a um governo ultraliberal e insensível e à troika.
Todos os direitos, nomeadamente sociais, que alcançámos com a Revolução de Abril, foram-nos retirados por um governo que, apesar de ter tido o seu maior desaire eleitoral de sempre nestas eleições autárquicas de domingo passado, não só não se demite, como ainda insiste em prosseguir uma política de esbulho dos aposentados e os funcionários públicos e culpa o Tribunal Constitucional por todos os seus desaires na governação.
Declaradamente em Lisboa e no Porto, (mas certamente também nutras regiões), há fome. Foram fotografadas as filas para a comida no Porto. Aqui em Lisboa, nos Anjos ou nas Avenidas Novas, todas manhãs há filas de pessoas para terem o seu pequeno-almoço – provavelmente a única refeição do dia - na Igreja de S. Sebastião da Pedreira.
Não sei quantas pessoas vivem abaixo do limiar da pobreza, mas sei que as há e que a pobreza envergonhada também é relevante.
Não consigo conviver bem com esta realidade de pessoas a remexerem nos caixotes de lixo, em busca de restos de comida, nem com os milhares de carenciados que recorrem às Organizações, como o Banco Alimentar contra a Fome, a Cáritas, a AMI Porta Amiga, a Legião da Boa Vontade e muitas outras.
Não sei viver em paz nem satisfeita quando á beira de mim há quem não tenha nada para comer, há crianças que desmaiam nas escolas com fome e vão para ao hospital com sequelas da subnutrição.
Não estou bem, quando os meus concidadãos passam mal, estão no desemprego e são incentivados pelo Primeiro-Ministro a emigrar..
O desemprego também atingiu a minha família. Não falo de cátedra.
Sei o que são esperanças perdidas, um presente entre parêntesis e um futuro cada vez mais adiado.
Vivi os cumes da alegria do 25 de Abril. Agora choro não apenas pelos meus filhos e pelas minhas netas, mas por todos os outros do mau país, que voltou a viver amordaçado.
Vivo num país ocupado. Estou farta deste Governo, deste Presidente, da Troika e do FMI que a compõe, mas que gosta de fazer o papel de arrependido.
Estou farta de gente que é pisada e humilhada todos os dias, mas quando chega a hora de escolher, escolhe não escolher. Estou farta desta abstenção a crescer e que representa quase tanto como o número dos que votaram.
Estou farta de tanta cobardia, de tanta hipocrisia.
Quero o meu Portugal de cabeça erguida e sem bajulações à estrangeirada.
Quero o meu Portugal vivo e ainda com forças para se revoltar.
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Foto de Sebastião Salgado

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